Quarta-feira, 13 de Abril de 2011

Um poema escreve-se sereno quando se anoitece em mim um luar de brilho diurno. Não porque se assemelha ao trovar alegre do sol, mas por pecar de pretensão ociosa e indiferente o que encanta monotonamente as auréolas do meu olhar. O mundo que se filosofa e o que realmente se sente assemelham-se a perdas de consciência inata com que nascemos e desenvolvemos, e rapidamente sentimos desaparecer. Sucumbe a vontade a um estender preguiçoso sobre o tecer do infinito, enredando-se em suas manhas um pensamento inóspito acompanhado pelo desejo incógnito de renascer no passado e reviver os momentos pendentes e inacabados cuja lembrança já há muito me atormenta o ser. Nem mesmo o riso de uma criança rejuvenesce em mim a vontade de viver. Nem mesmo esta estimada curiosidade inocente que lhe toma a vontade e a faz explorar incessantemente um modo para evitar ter de adormecer me encanta, apenas os recantos tenebrosos de um quarto escuro me regalam mais um capricho fantasioso, ou qualquer outra obra única imaginada pela beleza decadente do que fora a mente mais bela e inocente. Não há em mim pujança nem motivo para o esforço. Não existem desejos jubilados, exceptuando, talvez, o orgulho de voltar a viver passivamente uma vida ignorante, mas jovem e leda. Tantas memórias se choram silenciosamente de uma vida imortal exterminada por falta de ausência – falta de não ter nada.  Existira algum momento, em que prouvera a algum sábio o deliciar apenas com o escasso suco excretado de um fruto carnudo? Quem busca o saber não se contentará a viver chupando por própria misericórdia a verdade do seu ser… Questiono-me se será descarado respirar tão passivamente o ar que nos cerca, adoptando uma atitude tão vaidosa e orgulhosa, acreditando sempre que não será último o sopro que exalamos agora. A capacidade de prever garante ao Homem a monotonização do mundo. E a espera revela-se eterna, pelo momento em que a rotina enternece apenas a sua reminiscência no ser. Porquê aguardar? O que esperar de um engano incessante, de um tédio triunfante, igualando à vontade de atrever a garantia de adivinhar? A literatura, pelo menos, mantém, na íntegra, a classe e curiosidade que me encantam uma volúpia diferente e única.  A adolescência acaba e não se esquece, tal como agora se lembra a infância. A vida alicia-me a vontade de gritar, não de desespero, mas de saudade… Tanta vontade de viver, sentindo que, na verdade, já vivi tudo o mais. Sei que esta tormenta que me toma não é depressão, mas um sentimentalismo resguardado numa réstia de nostalgia, que não consegue reprovar a esperança sem crença, de que um dia poderei voltar a sorrir ledamente sobre todos aqueles entardeceres em que se amava a companhia e se olhava com prazer o raiar da luz do sol…

 O tempo passa, a fonte estagna, o mármore arrefece, e o que antes manifestava uma alegre dança sobre o pairar celeste demonstra agora apenas a calma de águas paradas que vão sendo evaporadas pela falta de temer, já que é preciso recear o tempo, pois não nos beneficia, apenas retira de nós o seu pertence, de um modo tão cruel e avaro, de uma forma tão insensata e pouco benevolente… Lembra-se de desconhecer a vida?

Tão proveitoso era esse desconhecer. Tanto amor e alegrias, tanta felicidade e paixões, tanta despreocupação, tanto aproveitar quando a infância carrega na sua vontade o peso de um viver de desagrado, em que apenas se valoriza o esforço impessoal, um rasurado indelével, mas tão ténue e escasso, sobre a pacificidade de viver… Não perderei tempo, haverá muito ainda que sonhar e saudade para lamentar, fundamentada na mais extrema felicidade de momentos que não voltarão mais, mas asseguram na vida a sua procura, e a vontade de viver.

 

Rui Cunha 11.º B



donos das palavras pratadanossacasa às 14:52
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