Domingo, 04 de Abril de 2010

Como o tempo passou! Ontem, ao entrar naquele quarto que outrora era digno de um palácio real, apercebi-me de como tudo muda com o tempo. Tudo envelhece, perde a cor, tal e qual a memória. E do pouco que me lembro da minha mais longínqua infância, aquele sempre presente quarto recordo até ao mais ínfimo pormenor. Sou até capaz de sentir agora o que senti há anos, quando lá entrei pela primeira vez. A admiração e a curiosidade típicas da idade fizeram aquele espaço misterioso ainda mais mágico. 

Logo à entrada, um pequeno corredor que dava acesso a uma sala com duas divisões. A primeira, decorada com muitos quadros de moldura trabalhada; dizia o meu avô que tudo aquilo eram obras únicas, de pintores consagrados, ou então fruto de mais um dos seus devaneios artísticos. As paredes, forradas com um papel florido de várias cores, um pouco desgastadas pelo tempo, lembravam-me a primavera que tanto ansiava todos os carnavais em que chovia. A mobília daquele quarto era feita de uma madeira escura, pesada e quente, e tornava-o preenchido de uma forma subtil, com todos os seus rendilhados e esculpidos tão belos. Recordo-me perfeitamente da figura de um anjo envolvido num enorme lençol, a imagem que mais me chamava a atenção, e que me fazia imaginar como que uma história narrada por todos aqueles pormenores esculpidos. À direita da porta, uma cómoda grande, das maiores que alguma vez vira até à data, e que ainda hoje, apesar de saber que a razão da sua grandeza era simplesmente a minha pequenez, recordo como sendo bastante robusta. Mesmo assim, além de umas quatro ou seis gavetas que possuía, esta suportava apenas uma pequena jarra com orquídeas amarelas, que pareciam sempre frescas e acabadas de colher, e uma fotografia a preto e branco, de tempos longínquos, eficazmente emoldurada com vidro e prata muito trabalhada, quase identicamente aos móveis. Acima desta, na parede, um crucifixo dourado, que o tempo quis que perdesse o brilho, mas que representava fielmente aqueles que estava habituada a ver nas igrejas, sempre que ia à missa com a minha avó, todos os domingos, e que simbolizava inequivocamente a catolicidade daquela família nortenha. Um pouco mais ao lado, a cama, com imensos desenhos esculpidos de forma muito elegante e subtil, desde as flores às trepadeiras, muito semelhantes às das mesinhas de cabeceira, ambas também robustas e espaçosas, que realçavam a cama, situada entre as duas. Não posso deixar de falar de um outro elemento daquele quarto pelo qual sentia imensa admiração: um enorme e confortável cadeirão onde passava grande parte dos meus dias, ora no colo do meu avô, ora sozinha e atarefada com as bonecas. Este foi um grande companheiro nos dias de chuva, onde me sentava aconchegada a observá-la do outro lado da janela, e até mesmo nos dias de verão, quando, ao início da tarde, a minha avó fechava carinhosamente a persiana e me deixava ali a dormir, naquele inigualável sofá.

A outra parte do quarto, bastante mais pequena mas igualmente acolhedora, estava separada do primeiro espaço por uma densa cortina de veludo bordô, que estava normalmente aberta, mas que, quando fechada, era uma grande aventura abrir e, mesmo sabendo o que ia encontrar, ‘descobrir’ os segredos que lá se guardavam. E a questão é que segredos, ali, não faltavam! Do outro lado dessa mesma cortina, havia um grande armário, da mesma linha do resto da mobília, que ocupava toda a parede maior. Era ali que estava guardada toda a roupa da minha avó, juntamente com as jóias, as carteiras e as maquilhagens com as quais eu tanto brincava. E mesmo apesar de mexer e remexer aquele armário vezes sem fim, em todos os momentos que lá ia encontrava algo novo, algo, para mim, insólito, que fazia questão de explorar e compreender (há que realçar que muitas das coisas que lá encontrava não me serviam de muito porque não chegava a perceber a sua utilidade). No chão, uma carpete em tons de verde e bordô, que combinava perfeitamente com a cortina, (principalmente quando eu não estava lá e fazia questão de a manchar com sombras, batons e migalhas das inconfundíveis torradinhas da minha avó) mas que dava um ar preenchido à pequena divisória. Ainda assim, havia um quadro na parede direita, o retrato da minha tia, ainda criança, com um cão, ambos com um ar de felicidade como poucas crianças tinham na época em que foi pintado. A moldura, simples e castanha, que o envolvia, por ser assim deixava que a pintura brilhasse por si e tornasse o quarto alegre, de forma a deixar qualquer um ali, parado, a olhar para si.

Ontem, quando lá entrei, vi as marcas do tempo, o desgaste da idade, a tristeza da velhice. Não estava à espera de algo tão diferente, como o que me surgiu perante o olhar. Assusta-me agora a maneira como o tempo actua sobre coisas, sobre as pessoas. Perde-se tanto, esquece-se tanto! Mas ainda assim, depois de os anos passarem, e apesar de o quarto estar agora vazio e quase sem cor, há sempre o mistério tão típico daquele espaço, que nunca será perdido, ou, pelo menos, esquecido. É verdade, como o tempo passou! Mas a magia? Essa permanece.

 

 



donos das palavras pratadanossacasa às 12:15
Grande Joana - em alma, claro. Em dose quádrupla, que o que é bom para ser ler e em quantidade, porque a qualidade já estava garantida! Continua a escrever assim, ou melhor ainda!

Parabéns!
Tiago Aires a 14 de Abril de 2010 às 23:16

Esta é a nossa casa. A prata que lá temos são meninos, não de prata mas de ouro...
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