Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

A manhã de domingo é um sopro de ar fresco. A manhã de domingo é um acordar relaxado que mistura pensamentos positivos com chuva miudinha gelada e pequenos-almoços na cama dignos de uma daquelas típicas comédias românticas americanas. Ninguém o pode negar, a manhã de domingo é aquele último adeus descansado ao fim-de-semana que passamos enroscados nos lençóis a ver séries da Fox ou desenhos animados deprimentes, quando sentimos aquela sensação de absoluto conforto e uma vontade inexplicável de sorrir enquanto nos espreguiçamos.

Nesta manhã de domingo, enquanto estou sentada no balcão da cozinha, deixando os meus pés balançar sem tocar no chão e acolhendo o tacto quente de uma chávena de café nas minhas mãos, olho para o exterior chuvoso, tão invernal que poderia ser confundido com o dia de Natal. Estou sozinha, a casa está vazia e nada ouço para além do burburinho tímido do rádio na outra divisão ao lado e do cair ritmado da chuva. Uma nostalgia invade os meus músculos, não de uma maneira melancólica mas feita de uma saudade quente dos dias de verão e das peles bronzeadas que pareciam até há bem pouco tempo estar presentes e, no entanto, é quase fim de ano.

Foi aí que me apercebi de como o tempo corria desvairadamente, não deixando espaços para paragens indecisas de pessoas inseguras, tal como o meu miserável caso.

“É um remoinho veloz que te arrasta para o futuro a cada segundo que passa.” tinha lido algures.

Mal este pensamento surgiu na minha mente senti uma revolta incontrolável e um desamparo amedrontado. Não era justo! Até algo tão imperturbável e impiedoso como o tempo deveria dar um desconto a adolescentes vacilantes e assustadas, certo? Como era possível construir realmente uma vida completa se para isso era necessário quase desistir dos momentos que “desperdiçamos” a respirar?

Eu não quero, não quero que tudo passe tão rápido, não quero caminhar o resto da minha vida acompanhada pelo peso na consciência das experiências que não tive, das pessoas que não conheci e dos sítios onde não fui e, principalmente, não quero esta sensação de impotência em relação à minha própria vida.

Suspirei pesadamente pousando a chávena, já vazia, ao meu lado no mármore cor de azeitona. Formara-se um nó de excelência de marinheiro no meu estômago, sentia-me fraca, ridícula e envelhecida afinal, poderíamos denominar aquela situação como uma crise de meia-idade. “Óptimo, uma crise de meia-idade aos dezasseis anos!” pensei ironicamente. Recostei a cabeça no armário atrás de mim e dirigi o meu olhar enfadado para o tecto contando todos os quadradinhos que o constituíam como peças de um puzzle demasiado fácil até para crianças.

Bem, talvez não tivesse de ser assim… eu continuo eu e a vida continua a minha vida. Talvez só tivesse de me deixar ir com a força da corrente para não me afogar, não é isso que costumam dizer as pessoas adultas e inteligentes? O nó desatou-se instantaneamente.  

Desci de um salto impulsionado pelas mãos no balcão e, mal senti o chão, corri para o meu quarto. Enquanto subia as escadas pensava nas inúmeras coisas que queria fazer hoje, no que queria arriscar hoje. Vesti-me da maneira mais rápida que consegui e conduzi-me até a porta. Ao abri-la senti o ar fresco e molhado chicotear-me a cara e o cabelo obrigando-me a fechar os olhos. Sorri e tornei a abri-los, não seria o mau tempo que me impediria de aproveitar o dia.

 

Inês Gomes, 11.º E

 

 

 



donos das palavras pratadanossacasa às 18:58
Como já tinha dito, está muito bem!
Podes começar a pensar no próximo texto!
António Caridade a 28 de Dezembro de 2009 às 19:16

Às vezes dou por mim a pensar em como desperdiçamos ridiculamente algo tão valioso como a nossa vida e chego sempre à mesma conclusão que tu, Inês.

Texto maravilhoso. Parabéns :D
Anónimo a 4 de Janeiro de 2010 às 21:52

Esta é a nossa casa. A prata que lá temos são meninos, não de prata mas de ouro...
Colégio Dom Diogo de Sousa

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